Passo a passo...

Topónimos referindo animais domésticos

Imagem gerada pela plataforma DeeVid AI

 

Na publicação anterior mostrei quais os topónimos mais comuns, ou para ser mais exato, quais os inícios de topónimos mais comuns.

Uma das curiosidades foi que, os que surgem como mais frequentes, são os que se relacionam com a atividade agrícola. Tal é compreensível, pois terá sido a razão principal para que as comunidades humanas se estabelecessem nos lugares.

Ocorreu-me então a seguinte dúvida: Será que em particular os animais domésticos poderão também ter originado nomes de localidades? Se ocorresse algum foco de atenção em algum tipo de animal, por exemplo a pastorícia de ovelhas, ou o apuramento de raças de cavalos, não deveria haver topónimos que mostrassem essas antigas atividades?

Com base no mesmo ficheiro de topónimos que referi na publicação anterior, fiz então uma simples pesquisa para encontrar nomes que remetessem para esses nossos “companheiros”.

Procurei pelos seguintes animais fornecedores de alimento e força motriz:

Touro, Boi / Vaca, Cavalo / Égua, Burro / Burra, Mula, Porco / Porca, Carneiro/ Ovelha, Bode / Cabra, Galo / Galinha, Coelho / Coelha, Pato / Pata, Pombos, Abelhas

Será que o leitor adivinha qual/quais destas espécies surge com mais frequência?

Vamos conferir já de seguida…

Note-se que procurei integrar nestas pesquisas nomes que remetessem para as estruturas de guarda destes animais. Em alguns casos tal associação ao animal específico era fácil, como por exemplo “Cabril”, “Vacaria”, “Coelheira”, “Pombal”. Noutros casos, porém, tal não era possível, sendo espaços em que podiam estar vários tipos, o que sucede por exemplo com “Curral”, “Cortelho”, “Malhada” ou “Palheiro”.

A tabela seguinte apresenta a perspetiva geral destes topónimos por distritos, ordenada pelo total, em sentido decrescente.

Total de topónimos de animais por distrito / Ilha mostrando a distribuição por espécie

Nota: No caso dos Açores e Madeira a divisão não é por distrito e sim por ilha, surgindo apenas as ilhas em que se identificou pelo menos um topónimo

Notei alguns aspetos que achei curiosos, mas possivelmente o leitor identificará outros:

No que se refere aos valores totais – última coluna, Santarém e Viseu são os distritos com mais topónimos deste tipo.

Um aspeto curioso é o de o animal com mais topónimos ser o pombo! Algo que me parece pouco intuitivo. O pombo, apesar de ser também um alimento na sociedade medieval [1], não era dos mais consumidos pelo povo e seria mesmo encarado como um “inimigo”, pois alimentava-se de cereais, “atacando” as colheitas. Era frequentemente um privilégio feudal restrito à nobreza e à Igreja. A sua carne era considerada uma iguaria. Os dejetos eram um estrume muito apreciado. A sua capacidade de orientação e de voltarem ao lugar de origem era também conhecida desde épocas remotas e por isso utilizados para envio de mensagens. Presumo que a sua associação a gente privilegiada tenha sido a principal razão para que os locais onde havia pombais passassem a denominar topónimos quando em seu redor se constituíram comunidades humanas. Todos os distritos do continente têm pelo menos um topónimo relacionado com pombos!

O segundo animal com mais topónimos, cabra / bode, é na minha opinião um resultado esperado. Decerto que as primeiras comunidades humanas tinham uma componente pastoril, e de entre todas as espécies domesticadas nesta região a cabra será a que é mais capaz de suportar ambientes agrestes, mesmo em zonas montanhosas onde decerto era frequente aos humanos buscar refúgio e defesa de outras tribos. Em Portugal continental Faro é o único distrito em que não se identificou nenhum topónimo relacionado com cabra / bode. Penso que vale a pena salientar que tradicionalmente a pastorícia de cabras se associou à de ovelhas, pelo que estes dois animais agregados passariam para primeiro lugar destacado, à frente dos pombos. Poder-se-ia fazer o mesmo exercício para cavalos burros e mulas, galinhas e patos, touros e vacas, mas não atingiriam valores semelhantes.

Em terceiro lugar surge “Abelha” / “Colmeia” / “Colmeal”. Uma posição que me surpreendeu. Idem para a quarta posição de “Coelho” / “Coelheira”. Aparentemente foram atividades que eram bastante valorizadas e distintivas, tanto que motivaram a adoção de nomes de tantos lugares. No caso dos coelhos há também que ter em conta que nesta análise não se consegue distinguir se os topónimos derivam de coelhos domésticos ou selvagens.

Em quinto lugar surge “Cavalo” / “Égua”. Esta posição cimeira parece-me natural, tendo em conta a relevância deste animal nas atividades humanas, em particular como meio de transporte, mas, diga-se, também tipicamente um animal apenas ao alcance de quem tivesse posses.

Deixo para o leitor outras interpretações desta tabela, fazendo apenas mais uns breves comentários sobre “Touro” e “Mula”:

Sobre “Mula” espantei-me por só surgir um, curiosamente não muito longe da minha terra natal e que eu já conhecia. Pensava por isso ser relativamente comum…

Achei curioso que no distrito de Santarém não surja nenhum topónimo relativo a “Touro” e que onde surjam mais seja nos distritos de Faro Setúbal e Beja! E nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, conhecendo-se a forte tradição dos touros nos Açores, em particular na Ilha Terceira, se constate que o único topónimo que surge é… na ilha de Porto Santo!

 

Caso o leitor queira conferir a lista de localidades que foi tida em conta neste levantamento, poderá descarregar este ficheiro Excel.

As imagens seguintes mostram parte do seu conteúdo, para que avalie se este levantamento lhe poderá interessar. Como sempre, terei todo o gosto em receber comentários ou sugestões de melhoria / correção.

Aspeto da lista de localidades ordenada por animal

 

Aspeto da lista de localidades ordenada por distrito e concelho

Por último…

De forma a obter uma visão mais geográfica e de conjunto, situei cada topónimo no seu concelho e montei três mapas, Portugal continental, Açores e Madeira.

Cada topónimo foi representado por um círculo colorido como uma etiqueta, de acordo com a correspondência da imagem seguinte.

Correspondência ícones- animais dos topónimos

Foram agregados por concelho / ilha. Como as cores correspondem a grupos de espécies que tipicamente estão associadas, se olharmos apenas para cada cor, temos também uma perspetiva da respetiva distribuição do “grupo”.

Distribuição de topónimos em Portugal Continental

 

Penso ser particularmente curioso constatarmos que a norte do Tejo, à exceção da Estremadura / Lisboa, estes topónimos se concentram numa faixa afastada do litoral e que à semelhança do litoral, no interior, Bragança, Guarda, Castelo Branco, são relativamente escassos.

O Alentejo de uma forma geral mostra topónimos mais dispersos, mas surge uma razoável concentração na zona de Sines / Santiago do Cacém.

Realço por último a concentração de referências ao topónimo Touro no sul do país. Como referi atrás, os distritos com mais topónimos deste animal são Faro e Setúbal, quatro de cada. Mas como se pode constatar nesta imagem, 3 dos referentes a Setúbal estão bem a sul, no Alentejo. E Beja também mostra 3 topónimos igualmente a sul.

Não penso ser fruto do acaso. O touro é um animal a que o ser humano associou desde tempos remotos com poderes e relações sobrenaturais. Podiam ser a encarnação de um deus, como animal privilegiado para o sacrifício em nome de um deus poderoso. No caso deste nosso território, estas associações seriam reforçadas por influências comerciais vindas do oriente, através dos fenícios, mas também dos romanos.

Distribuição de topónimos nos Açores

 

Distribuição de topónimos na Madeira

Em jeito de conclusão

Este levantamento é apenas um exercício curioso. À semelhança da publicação anterior sobre os topónimos mais comuns, também neste caso não é fácil definir fronteiras entre os nomes, ou mesmo qual o exato âmbito de cada um. O caso de “Coelho”, que tanto poder referir a espécie domesticada como a selvagem, é disso exemplo.

Mas apesar destas limitações, mesmo informações como estas, que resultam de um simples exercício de curiosidade, podem ser interessantes, ao nos mostrar uma perspetiva de olhar diferente sobre o nosso país.

Presumo que outros olhares possam identificar mais curiosidades sobre estas informações. Terei todo o gosto em obter o ponto de vista do leitor.

 

Referências

[1] Marques, António Henrique Rodrigo de Oliveira – A sociedade medieval portuguesa, Livraria Sá da Costa Editora, 5ª edição, 1987

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