Passo a passo...

A imagem de Aveiro do século XVIII (que será afinal dos finais do século XVII)

Imagem de Aveiro - Revista Panorama - 1843

Quem tenha curiosidade pela história de Aveiro decerto já terá visto uma imagem que surge frequentemente quando o contexto da história ou tradição torna oportuna essa referência. Essa imagem, que aqui apresento, surgiu ao conhecimento público em 1843 num artigo da revista Panorama.

No ponteiro seguinte pode consultar a digitalização desse artigo.

https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/OPanorama/1843/N56/N56_master/N56.pdf

O artigo não referia a origem, pelo que, tanto quanto sei, a polémica ainda hoje decorre quanto à sua autenticidade, se terá resultado de uma observação real ou de um exercício de imaginação, bem como quanto à época em que terá sido feita.

Sucedeu que em 2013 fui surpreendido com um catálogo de um alfarrabista, o qual colocava em leilão um "Álbum de desenhos" com gravuras antigas inéditas de diversas localidades de Portugal. A obra seria a mais relevante do catálogo e surgia mesmo na capa, cuja imagem anexo.

Vou transcrever de forma quase literal a descrição que consta do catálogo.

Álbum constituído por 42 folhas, com cerca de 17,5cm x 27,5cm, numa encadernação em veludo, com desenhos originais, provavelmente do século XVII, de muitas cidades portuguesas. No início tem um frontispício manuscrito com o brasão de amas de Portugal em cima de uma laje com a inscrição "Typvs Provinciae Transtaganae, vulgo ALENTEJO". Seguem-se desenhos originais do Palácio de Vila Viçosa, Castelo de Vide, Castelo de Estremoz, Elvas, Beja, Barra de Setúbal, Évora (para a porta do Sul), Portalegre, Olivença, Moura, Campo Maior (no verso de Moura), Parte da Perspetiva da nobre Villa de Moura. Segue-se um novo separador, desta vez apenas tipográfico, com o título manuscrito “TYPVS ALGARBIÆ”, ao qual se  segue um mapa do Algarve, Cabo de S. Vicente, Promontório de Sagres, Lagos, Portimão, Silves, Loulé, Faro, Tavira, Castro Marim. Seguem-se, já sem separador, as vistas de Abrantes, Castelo Branco e Almeida (na mesma folha), Guarda, Viseu e Lamego (as três últimas na mesma folha), Coimbra, Aveiro, Monção, Caminha, Barcelos, Viana, Guimarães, Amarante, Ponte de Lima, Porto, Braga, Vila Real, Bragança, Miranda, Leiria, Torres Novas e Santarém (as três últimas na mesma folha) e, o último desenho de Tomar. No total, além dos separadores e mapa do Algarve, estão ilustradas 45 cidades de Portugal.
São impressionantes os desenhos, pelo seu rigor e extraordinária beleza que apresentam, sendo um importantíssimo documento iconográfico sobre o estado das cidades na época.

No interior do catálogo surgia mais a seguinte imagem.

Como o leitor já compreendeu, de imediato associei a estética destas imagens à da “nossa” conhecida imagem de Aveiro.

Contactei de imediato o leiloeiro, antes do leilão, enviei-lhe a “nossa” imagem e perguntei-lhe se corresponderia à representação de Aveiro do Álbum. Confirmou-me que, não sendo absolutamente igual, era muito semelhante. Não se dispôs a partilhá-la comigo.

Procurei depois que o leiloeiro me pusesse em contacto com o comprador, mas não tive sucesso. Insisti passados alguns dias mas com o mesmo resultado. O comprador queria permanecer anónimo.

Tinha chegado a um beco sem saída...

O tempo foi passando…

No início deste mês, casualmente, encontrei uma página na internet datada de Junho de 2021, que divulgava o lançamento de um livro que abordava temas da história de Santarém. ( https://maisribatejo.pt/santarem-arte-historia-e-patrimonio-um-novo-livro-que-mostra-um-amor-incondicional-pela-cidade/ ) . Qual não foi o meu espanto ao ver que um dos artigos aborda e apresenta “uma imagem inédita de Santarém”, que reconheci, pois constava do catálogo que descrevi atrás.

Mais uma vez uma luz de esperança se acendeu… seria já possível contactar o dono do álbum e obter uma digitalização da imagem de Aveiro?

Consegui entrar em contacto com uma autora do artigo, que de forma muito simpática me respondeu.

Confirmou que a obtenção da versão completa da imagem de Santarém constituiu um processo moroso. Mas não conheceu o dono do Álbum!

A recolha da imagem apenas foi possível, por ter intervindo uma pessoa que intermediou a comunicação com o dono. Sucede que... essa pessoa entretanto faleceu…

Adenda

Depois de ter feito esta publicação, "muita água correu debaixo da ponte", tornando de certa forma obsoleta a minha publicação inicial.
O investigador José Manuel Vargas, informou-me que este álbum, de imagens de terras portuguesas, seria provavelmente da autoria de Johann König (João dos Reis), padre jesuíta nascido em 1639 na Suíça, que lecionou Matemática na Universidade de Coimbra e fez trabalhos diversos em Portugal com base nos seus conhecimentos de desenho e perspetiva.

Segundo José Manuel Vargas, que tem pesquisado também a origem de gravuras do mesmo tipo, publicadas na referida revista Panorama, relativas a localidades do Algarve, num artigo publicado na revista Conimbricences por Noël Golvers [1], este autor informa, por exemplo, que Johann König é referido na obra datada de 1706 “Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal”, de António Carvalho da Costa, da seguinte forma:

“O Padre João dos Reys da Companhia de Jesus, Alemão, bom mathematico, e insigne na perspectiva e pintura, delineou a topografia de Portugal com todo o acerto, e desejaramos poder unir estas plantas com as nossas descripções, para que não ficàra que desejar aos curiozos o que gozemos, podendo-o consequir, se esta obra for bem aceita, na segunda impressão, como tambem alguns mappas com mais exacção q. os que se tem impresso”.

Acrescenta Nöel Golvers no mesmo artigo (traduzido):

De acordo com as escassas informações disponíveis, em particular de António Carvalho da Costa (1706), e em consonância com as qualidades profissionais de König, este “mapa” consistia mais numa série de esboços topográficos (“plantas”, no texto de Costa), feitos no local, segundo as regras da perspetiva e da arte do desenho, do que num mapa com coordenadas, etc. Por essa razão, Costa sugeriu uma reimpressão, com algumas correções necessárias e uma combinação das suas descrições (textuais) com as ‘plantas’/mapas das cidades de König.

José Manuel Vargas forneceu-me outras informações muito interessantes, como sejam as referências que sobre este padre jesuíta constam da obra de Francisco Rodrigues “A História da Companhia de Jesus na Assistência em Portugal” [2], em que, entre outras informações, são referidas as localidades que percorreu para fazer este levantamento:

De Coimbra encaminharam-se a Leiria, dali a Ourém, Tomar, Torres-Novas, Abrantes, Gáfete, Portalegre, Castelo-de-Vide, Elvas, Olivença, Beja e Vidigueira. Dirigiram-se por Évora e Vila-de-Aguiar para Setúbal. Logo foram saindo do Alentejo, entraram na Beira, chegaram a Castelo-Branco, às Idanhas e a Penamacor, passaram pela Covilhã, por Belmonte, Guarda, Sabugal e outras Vilas, e adiantaram-se até Almeida e Castelo Rodrigo. Subiram a Torre de Moncorvo, primeira Vila de Trás-os-Montes, e voltaram para Freixo de Espada na Cinta, Bemposta, Sandim, Vinhais, Chaves, Vila Pouca e Vila Real. Prosseguiram a viagem pela Província de Entre-Doiro-e-Minho, e visitaram primeiro Amarante, logo Barcelos e Porto e depois Viseu.

Aqui lhe veio a Konig outro companheiro, cuja carta de viagem não pudemos descobrir. Com o mesmo ânimo e espírito percorreu as terras que lhe faltavam para concluir a sua obra. E saiu o trabalho acabado. O autorizado P. António Carvalho da Costa escreveu que João dos Reis «delineou a topografia de Portugal com todo o acerto». Poucos anos depois confirmou António Franco o testemunho de Carvalho da Costa ao afirmar que «por ordem del-rei correu com muito trabalho todo este reino e debuxou com toda a propriedade as cidades e os principais lugares dele, em ordem a se estamparem».

Existe, pois, uma quase certeza de que este álbum corresponda a esta “série de esboços topográficos”.

Note-se por último, por curiosidade, que segundo Rafael Moreira [3], Johann König tendo em conta as suas competências gráficas, desenvolveu trabalhos em diversas áreas, como por exemplo na elaboração de plantas de estruturas, cenografias para festejos públicos, ou vistas em perspetiva de localidades.

Agradeço a José Manuel Vargas as muitas informações que comigo partilhou, de que aqui apenas apresento uma parte, bem como a permissão para fazer esta adenda.

Em jeito de resumo

Existe de facto um álbum de imagens antigas de localidades portuguesas, imagens essas que são do final do século XVII e tudo leva a crer que foram elaboradas pelo padre jesuíta Johann König (João dos Reis).

A “nossa” imagem de Aveiro é proveniente decerto desse álbum, mas seria importante conferir quais as diferenças que aparentemente existem relativamente ao original.

De acordo com Rafael Moreira [3], o atual proprietário "não pretendia publicá-lo por ter tido oferta de especialista, para fazer o estudo completo de cada uma das vistas e da obra como um todo a fim de a publicar".

Parece-me claro que um estudo abrangente deste álbum necessitaria do envolvimento de toda a a comunidade de investigadores, nomeadamente dos que já fizeram pesquisas e publicaram estudos com base nas diversas vistas publicadas na revista Panorama, bem como, mais recentemente, em algumas imagens originais que pontualmente o atual proprietário aceitou disponibilizar. Vejam-se como exemplo as que são apresentadas no anexo desta publicação.

Claro que o ideal seria que este álbum fosse adquirido por uma entidade pública, por exemplo pela Torre do Tombo, para que fosse devidamente estudado e partilhado por todos.

Anexo

Algumas publicações sobre imagens deste álbum

Reitero os meus agradecimentos a José Manuel Vargas por estas sugestões de leitura

Catálogo do Museu Municipal de Portalegre. Câmara Municipal de Portalegre, Laura Romão e Sónia de Campos Alves (coord.); 2021

Integra o seguinte artigo:

PORTALEGRE, CAPITAL ESPIRITUAL DO MAIS ALTO ALENTEJO, Ruy Ventura

https://www.academia.edu/63126905/Portalegre_capital_espiritual_do_mais_alto_Alentejo

SANTARÉM - ARTE, HISTÓRIA E PATRIMÓNIO, Maria Emília Vaz Pacheco; Eva Raquel Neves (coord.) ; Câmara Municipal de Santarém; Edição Caleidoscópio; Dezembro 2020

Integra os seguintes artigos:

SANTARÉM NO [ÁLBUM DE DESENHOS] TYPVS PROVINCIÆ [...]

[ÁLBUM de Desenhos] TYPVS Provinciæ, Nuno Gonçalves

Uma Vista Inédita de Santarém, Maria Emília Vaz Pacheco

https://www.academia.edu/81623272/A_Arte_da_Pintura_em_Santar%C3%A9m_durante_a_Idade_Moderna_s%C3%A9culos_XV_XVIII_

Revista Monumentos, edição nº 38, Abril de 2021

Integra o seguinte artigo:

Lamego, memória(s) da cidade,

Marta Arriscado de Oliveira e João Luís Marques

https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/139820/2/532640.pdf
      

Referências

[1] Golvers, Noël ;König (Reis/Reys), Johann (João dos), Conimbricenses.org Encyclopedia, Mário Santiago de Carvalho, Simone Guidi (eds.), doi = “10.5281/zenodo.7447787”, URL = “https://www.conimbricenses.org/encyclopedia/reis-joao-dos/”, latest revision: December, 16th, 2022.

Pode aceder ao artigo aqui

[2] Rodrigues, Francisco S.J.,A História da Companhia de Jesus na Assistência em Portugal”, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1944, páginas 211-217

Pode aceder à digitalização deste livro aqui

[3] Moreira, Rafael, À sombra de Duarte de Armas - O Mappa de Portugal do padre Johann Koenig (João dos Reis) S. J., 1685-1690, Revista Monumentos, edição 39, Dezembro 2022

Pode aceder ao artigo aqui

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