Passo a passo...

Microtopónimos – memórias de muitos e diversos passados

Mapa com microtopónimos dos arredores da minha terra Caria, no concelho de Belmonte

Ao longo da nossa vida convivemos com inúmeros “nomes de locais”. Esses nomes são essenciais quando queremos comunicar.

Quase sempre o primeiro que aprendemos é o da terra que nos viu nascer, seja uma grande cidade, ou uma muito pequena aldeia. Quando era comum os partos serem feitos em casa, quantas vezes com grande risco de vida da mãe e da criança, nascia-se frequentemente em espaços ainda mais isolados, como “lugares” ou “quintas”. Normalmente, mesmos esses locais remotos tinham nome, como a Quinta de Lamaçais, ou o lugar das Ferrarias, isto para citar dois espaços na zona da minha terra natal, Caria.

Tanto quanto averiguei, não existe em Portugal nenhum levantamento estruturado de microtopónimos. E pelo que assisto na minha terra natal, sobretudo com o abandono dos trabalhos agrícolas exercidos de forma tradicional, vão perdendo a sua utilidade, como espaços distintivos com significado, que permitiam localizar propriedades, encruzilhadas, fontes, montes, etc. Muitos deles vão-se simplesmente perdendo em ritmo acelerado à medida que as gerações são substituídas. Tal erosão é inevitável. Porém, julgo ser relevante procurar na medida do possível reter algumas dessas memórias, pois é minha convicção de que em muitos casos nos ajudam a formar um melhor retrato de quem somos e de onde viemos.

Venho desafiar o leitor a refletir sobre o que se passa nas zonas que melhor conhece e procurar manter vivas essas memórias. Caso seja uma das que a seguir vou apresentar, muito agradeço se me enviar informações adicionais para complementar este levantamento.

Recordo que o meu endereço de e-mail é: [email protected]

Procurei fazer um exercício simples em três regiões que conheço razoavelmente bem:

  • A minha terra natal Caria, no concelho de Belmonte;
  • A zona de Esgueira, Aveiro, onde atualmente vivo;
  • Peniche, onde também tenho laços familiares.

Para estes três espaços obtive mapas com a escala menor possível, ou seja, com o máximo detalhe, no caso 1:25000 (1 cm representa 250 metros) e com a data mais antiga possível (1940 para Caria, 1951 para Esgueira, 1938 para Peniche).

Note-se que estes mapas estão disponíveis para quem os pretenda obter nos serviços cartográficos do exército ( www.igeoe.pt ).

Constata-se que estes mapas identificam muitos microtopónimos, alguns deles esquecidos ou quase esquecidos. Curiosamente, em espaços que se urbanizaram, vemos um fenómeno interessante de adoção desses nomes quando se denominam por exemplo bairros. Temos assim por exemplo na zona de Esgueira / Aveiro, o “Caião” ou a “Presa”. Alguns destes nomes surgem precisamente nas aplicações de suporte geográfico como o “Google Maps”, como zonas urbanas.

Criei três mapas seguindo abordagens distintas, como explico no Anexo 1.

Para todos eles foi colocada uma rede de quadrícula, em que cada uma se pode identificar por uma letra e um número. Caso o leitor conheça alguma destas regiões, ou possua algum conhecimento que possa ajudar a esclarecer a origem dos nomes destes locais, está convidado a comentar e contribuir, referindo a quadrícula em que pretende centrar as suas sugestões.

Com cada mapa apresento algumas reflexões pessoais, meramente ilustrativas. São alguns poucos exemplos de um trabalho que pode sempre evoluir.

 

Levantamento de Caria / Belmonte

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“3E” - “Ribeira da igreja”

Está bastante afastada da atual igreja matriz, mas próxima da capela de São Domingos. Perto desta capela há uma sepultura cavada na rocha. Muito provavelmente o local da atual capela seria o local da igreja primitiva.

“4/5C” - “Bracinho” ou “Barcinho”.

É um espaço agrícola fértil. Ao lado passa uma antiga via romana. Pode aqui ter existido uma “vila” (casa senhorial) romana. Sempre o ouvi como “Bracinho”, mas num levantamento de vias romanas em Portugal ( https://viasromanas.pt/ ) surge referido como “Barcinho”. “Barcinho” pode ter derivado de “Barcinus”, nome de família romana.

“4/5 H/I” - Vale dos Tomés

Esta denominação (Vale Tomé/Tomés) ocorre em mais locais de Portugal. Por exemplo em Oleiros e Odemira, são mesmo localidades. Em anteriores publicações expliquei que muito provavelmente temos bastantes topónimos de origem fenícia, que por influências culturais penetraram no interior. “Vale Tomés” parece ser uma adaptação fonética direta de “Baal Tam Ez”, que é um dos atributos mais conhecidos do deus Baal. “Baal que lança setas”, Baal senhor das tempestades, sendo as setas os raios.

“1E” - Sítio do Cagamoio

"Caga” terá a conotação que todos conhecemos… “Moio”, determina uma grande quantidade, aplicada a líquidos ou cereais principalmente. Segundo o Elucidário de Joaquim Viterbo [1], variava muito de região para região. Note-se que este termo existia também noutros países, como nos reinos de Castela e no espaço que atualmente é a Itália, igualmente com correspondências muito diversas. No mesmo Elucidário refere-se: “na Beira Baixa, era quase geral ser o moio dos sólidos de 64 alqueires e o dos líquidos de 32 almudes”. Se bem que esta interpretação seria plausível, outra surge tendo conhecimento de outras fontes…

No livro Contributos e reflexões para a história de Caria [2], Vítor de Sousa transcreve na página 104 e 105 um texto datado de 1534, em que se declara a demarcação do concelho da Covilhã. Não reescrevo aqui a totalidade, mas apenas a parte que nos interessa:

“… à serra de Sam Gilraldo e pla serra habaxo comtra lavacollos dr.to a hu penedo gramde nedio e dy direito a hus pelames que estã sobre o poço de quaga molho…”

Lendo toda a transcrição não temos dúvidas que a última parte desta frase se situa no “Sítio do Cagamoio”. Parece claro que a palavra “molho” evoluiu para “moio”. Mas que “molho” seria este? A mesma transcrição parece dar a resposta. “Pelames” denominavam espaços de curtimenta de peles, tipicamente com grandes tanques. Tinham um cheiro nauseabundo, com escorrências a condizer. “Caga molho” seria um nome adequado… A evolução de “molho” para “moio” terá ocorrido possivelmente quando deixou de funcionar como curtimenta e possivelmente passou para utilização agrícola.

 

Levantamento de Esgueira / Aveiro

Esgueira_cercanias_mapa_blog_microtoponimos.jpg
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Sobre esta região encontrei um estudo de Manuel Carvalho, Povoamento e vida material no concelho de Aveiro [5] que faz uma reflexão alargada sobre os topónimos do concelho. Sugiro a sua leitura a quem pretender ter uma perspetiva geral bastante completa. Incluo nesta minha publicação algumas referências que considerei mais interessantes nesta abordagem que estou a fazer.

 

“15B” – Forca

Neste caso a suposição da origem é clara e confirma-se.

Naquele espaço existiu de facto a forca de Aveiro, como sucedia frequentemente, afastada da localidade, mas num espaço bem visível.

E onde se situava em concreto?

Na imagem seguinte, que tem como base um mapa do século XVIII que está à guarda do Museu de Aveiro, fica clara a sua localização, na zona superior esquerda. Inseri mais algumas anotações para ajudar o leitor a interpretar o mapa.

Note-se que o termo “forca” também denominava uma bifurcação no caminho, que neste local também ocorria e ocorre. Mas isso foi uma coincidência.

Se o leitor fizer uma pesquisa na internéte, não terá dificuldade em encontrar este mapa. Por exemplo aqui.

E o que sucedeu a este local?

Curiosamente, se bem que esteja numa zona de intensa construção, é um dos espaços menos urbanizados, quem sabe sob alguma maldição que algum dos ali penitenciados tenha rogado...

Na imagem seguinte indico a localização, vendo-se essa zona ampliada. Quem conhece Aveiro não terá dificuldade em a situar.

"8D” – Alumieira

Segundo Manuel Carvalho [5], trata-se da forma latina, correspondente ao árabe “Almeara”, designando o lugar de sentinela donde se faziam sinais de luzes, com candeias, fogueiras ou archotes.

Parece-me muito interessante este topónimo, pois pode relacionar-se com funções de “farol”, nos tempos em que a ria era navegável até Esgueira. Mataduços poderia ser um espaço relevante, complementando o porto de Esgueira.

 

“17D” – Presa

Mais uma denominação que tem uma explicação relativamente direta.

Havia neste espaço uma presa de água, que permitia irrigar os campos férteis da Quinta de São Giraldo. A memória dessa estrutura permaneceu como marco relevante para nomear esta zona. Curiosamente essa presa estaria situada no ribeiro que passava na zona baixa junto à forca, referido no mapa antigo apresentado antes. Esse ribeiro, também denominado Ribeira de Vilar, passou mais tarde junto à antiga Fábrica Cerâmica Campos e alimentava o Esteiro da Fábrica, correspondendo atualmente ao Canal Central no seu percurso até ao Cais da Fonte Nova.

 

“19H / 19I” – Quinta do Torto

Não encontrei nenhuma explicação para este topónimo.

Presumo que possa ter a ver com algum proprietário que fosse de comportamento ruim. O adjetivo “torto” tinha o significado de fazer prejuízo / fazer maldade. Por curiosidade, um dos documentos mais antigos conhecidos, escritos em português, denomina-se “Notícia de torto”, sendo uma exposição de queixas de Lourenço Fernandes da Cunha, relativas a maldades que lhe foram feitas, datando algures no tempo entre 1211 e 1216.

O leitor pode consultar bastante informação sobre este documento, na internéte, por exemplo aqui.

 

“12D” – Esgueira

Sobre este topónimo já fiz uma publicação que pode consultar aqui. Terá origem fenícias, derivando de “iskaru”, significando “trabalho”. Nessa publicação apresento a minha argumentação.

 

“7G” – Quinta da Queimada

Numa busca rápida na internéte constatei que este mesmo topónimo ocorre em muitos locais, tais como:

Évora, Corroios / Seixal, Armação de Pera, Espinhosela / Bragança, Paio Pires / Setúbal…

E percebi que haverá vários outros! Não serão coincidências…

Possivelmente, haverá uma origem comum, de âmbito geral, partilhada com muitos outros lugares. Se fosse uma situação pontual poderia estar associada a uma mulher que tivesse sofrido um acidente com queimaduras graves, mas com esta generalização não será o caso.

Poderá estar associada a queimadas controladas para eliminação de sobras agrícolas ou para renovação de prados? Suponho que em ambos os casos não justificasse dar nome a um terreno, muito menos uma “quinta”.

 

Levantamento de Peniche

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“3B” - Remédios

Trata-se de um espaço de santuário atualmente dedicado a Nossa Senhora dos Remédios. O nome deriva claramente de devoções ligadas à saúde e a curas, mas atualmente essa vertente está quase ausente. Todo o local, em particular a capela escavada na rocha, muito perto do promontório, com algumas semelhanças ao santuário de Nossa Senhora da Nazaré, remete para práticas devocionais antiquíssimas. Uma dessas práticas diz respeito aos Cortejos dos Círios. Vindos de localidades em alguns casos bastante distantes, grupos de romeiros levam os seus estandartes e o seu círio, cumprindo promessas que se repetem de geração em geração, até um dos santuários dessas rotas, em caminhadas que podem demorar vários dias. Não por acaso, o santuário dos remédios e o da Nazaré são dois desses destinos. Como será de supor estas devoções e tradições estão a perder-se. Moisés Espírito Santo, em Origens orientais da religião popular portuguesa [3], apresenta imensa referências deste tipo de devoção por todo o país e atribui-lhe uma origem em ritos vindos do oriente e trazidos pelos fenícios.

Se o leitor não conhece esta tradição e gostaria de ter uma ideia do que constava, sugiro a leitura do Anexo 2.

 

“5D” - Campo da Torre

Muito provavelmente haveria uma torre neste espaço, mas desconhece-se onde em concreto e para que finalidade. Na representação de Peniche mais antiga que conheço, que consta no Atlas que o português Pedro Teixeira Albernaz fez para o rei Filipe IV de Espanha (Filipe III de Portugal) em 1634, surge o que parece ser uma estrutura estreita neste espaço, que na altura era o largo defronte ao porto, porto esse que estaria no local onde foi mais tarde construído o forte. Representaria essa torre? Na imagem seguinte mostro parte desse mapa e assinalo a estrutura a que me refiro.

Note-se que num outro mapa do século 18, que mostro a seguir, elaborado cerca de um século depois, não vemos nenhuma estrutura isolada nesse local. Curiosamente, no espaço do forte já surge uma primeira estrutura defensiva, construída precisamente após a nossa independência de Espanha e para nos proteger de retaliações.

Mapa_sec_18_detalhe.jpg

“3E” Gambôa – Praia da Gambôa

Como poderão ter visto no mapa mais antigo mostrado, este espaço é referido como “Bahia da Camboa”. Ou seja, “Camboa” e não “Gambôa”. Um dicionário atual, por exemplo o da Porto Editora, explica que “Camboa” é “cova ou pequeno lago artificial, à beira-mar, para onde entra o peixe miúdo, na maré alta, e onde fica retido na maré baixa”. Ainda podem ser vistos neste espaço tanques que penso terem servido de viveiros de marisco. Já a palavra “Gambôa” corresponde a um tipo de marmeleiro. Terá ocorrido uma adaptação fonética, depois dessas estruturas terem deixado de ser utilizadas.

Aproveito para salientar que nessa mesma imagem, junto a essa baía, estão representadas salinas, atividade que, penso eu, há séculos foi abandonada.

 

“5B” - Gruta da Furninha, ou Cova de Dominique

Como explica o dicionário da Porto Editora, furna é “cavidade de grandes dimensões, geralmente natural, no interior de um rochedo ou da terra”. Nesta zona da costa, são formações comuns, escavadas no calcário pelas marés mas também pelas águas da chuva.

Esta gruta, contudo, pouco tem de comum. Foi habitada desde tempos pré-históricos, incluindo quer o “homem de neandertal” e o “homo sapiens”. Seria bem mais longa, em direção ao mar, tendo sido aos poucos a falésia desmoronada pela erosão. Foi alvo de estudos arqueológicos que revelaram imensa informação. O leitor facilmente encontrará informação sobre ela na internéte. Esta página da Câmara Municipal de Peniche faz na minha opinião uma boa apresentação.

Também é denominada de “Cova de Dominique”, pois como refere Mariano Calado [4] (pág. 48), seria “segundo a tradição, um afamado bandido e salteador das igrejas do povoado” que nela se terá abrigado. Não consegui identificar nada mais nem de concreto sobre esta informação. Nem mesmo a suposta época em que tal terá ocorrido.

 

Anexo 1 – Como foram construídos os mapas

Mapa de Esgueira / Aveiro

Tem como base o Google Maps, aproveitando as denominações de “bairros” que esta aplicação já possui e que surgem a cinzento.

Coloquei depois a azul os nomes que constam do mapa dos Serviços Cartográficos do Exército (SCE).

Contactei também algumas pessoas minhas vizinhas em busca de outras denominações, mas não tive sucesso. Não consegui contactar ninguém com mais de 60 anos, que fosse natural desta zona e que tivesse vivido / convivido com atividades em que fosse importante o conhecimento das terras.

 

Mapa de Peniche

Para este mapa pretendia ter também como base o Google Maps, mas na altura em que o tentei elaborar a aplicação não permitia retirar as referências publicitárias. Por essa razão optei por usar uma outra aplicação de referência geográfica, neste caso o Open Street ( https://www.openstreetmap.org/ ).

Sobre esta base coloquei também a azul os nomes que constam do mapa dos SCE.

Não contactei outras pessoas para completar este levantamento.

 

Mapa de Caria

Como nesta zona o Google Maps quase não tem referências de “bairros”, optei por ter como base logo o mapa dos SCE, que inclui já bastantes microtopónimos. Esses nomes surgem nas cores base do mapa, ou seja, negro e castanho.

Constatei que muitos outros nomes não constavam. Contactei amigos que me ajudaram a desenvolver este levantamento permitindo preencher os nomes que ficaram representados a azul.

Aproveito para agradecer a estes amigos que colaboraram nesta fase:

Paulo João Marques dos Santos, António Manuel Evaristo Duarte, Mário José Proença Ribeiro.

 

Anexo 2 – Descrição dos Círios em Peniche

Texto extraído do livro Peniche na história e na lenda, de Mariano Calado, publicado em 1968 [4] – página 352

 

Até há uns bons vinte anos, o Santuário dos Remédios era o centro de um caudal de romarias das aldeias e terras vizinhas que, de Julho a Novembro, mas de modo especial em Outubro — e desde tempos recuados—, se achegavam com os respectivos círios, a celebrar na antiquíssima capela uma festa cheia de religiosidade que, no exterior, rematava com arraial e folguedos de estrondo.

O fim principal dos círios era o de agradecer à Virgem dos Remédios as benesses recebidas durante o ano anterior e implorar a sua intercessão para que as suas famílias, as suas terras e o seu trabalho fossem abençoados no

ano que se seguia. Todavia, o círio demorava-se, normalmente, três dias no santuário, tempo esse empregado em oração, em merecido repouso das lides habituais e em pitoresca folgança, a que, além do arraial, não faltavam descantes, bailaricos e saborosos pitéus, com o acompanhamento do bom vinho da região que, não poucas vezes, graduava demasiado a alegria popular... E, se o ano tivesse sido de fartura, todos primavam em vestir os melhores fatos e se compraziam em gastar o mais que pudessem, para brilhantismo do respectivo círio.

Os círios eram a nota pitoresca do Peniche de há vinte anos para trás, normalmente compostos de grandes filas de carroças e galeras. repletas de gente festiva, garridamente trajada e que se fazia acompanhar dos característicos cestos de vime encarniçado. No carro da frente, em que seguia o pendão indicativo da sua origem, ia o fogueteiro, lançando, por todo o caminho, os barulhentos e indispensáveis foguetes e morteiros, especialmente em chegando ao portão de Peniche de Cima e à entrada do largo dos Remédios. Atrás, noutro carro, seguia o homem da gaita de foles, enchendo os ares de notas alegres e populares. Logo a seguir, num outro carro — que se procurava ser o mais bem decorado -, seguiam o juiz da festa e os mordomos das confrarias da terra, enroupados nas suas opas vermelhas, e o anjo —a figura central do círio, um rapazito escolhido, normalmente, de entre os menos traquinas e com algum jeito para discursar. O anjo vestia uma mescla de divino e humano, de antigo e moderno, com uma saia de seda, sapatos quase sempre

vermelhos e meias abertas, usava uma coroa ou um imponente toucado de plumas brancas, às vezes asas postiças e segurava nas mãos enluvadas uma bandeira de damasco vermelho com a estampa da Senhora dos Remédios.

Quando o círio chegava ao largo do Santuário. Estralejavam, com fúria, os foguetes, a anunciar a sua chegada, enquanto o rapazio se acercava feliz e endiabrado, caracoleando em redor dos carros, que entravam, triunfalmente, no recinto do arraial. Depois, sempre ao som da gaita de foles o círio dava três voltas em torno da capela, após o que, em frente do portão gradeado, o anjo, de pé, solenemente, pregava a loa — recitação de uns versos em louvor da Senhora dos Remédios, versos quase sempre pobres de rigorismos métricos mas ricos de simplicidade e fé, como estes:

ó Senhora dos Remédios
que estás no teu altar:
aqui vimos nós de longe
para te vir visitar...

Logo que cessa o vento e a vaga
e assim que a Virgem aparece
nem a embarcação naufraga
nem o moribundo falece.

Acabada a loa, o anjo, sempre altivo nas suas vestes garridas, lançava um viva entusiástico à Virgem e todo o círio, mai-lo povo que se acercara, curioso, rubro de entusiasmo, correspondiam com um viva ainda maior. E a música atacava a fundo uma marcha viva, alegre, a gaita de foles atroava os ares com a chinfrineira do seu assobio e os foguetes rebentavam, vibrando nos ares, numa alegria comunicativa, estonteante. retintamente popular, enquanto o rapazio dava largas à sua alegria e corria, atrás das canas dos morteiros, atrás dos carros — cujas muares guisalhavam, contagiadas pelo entusiasmo -, à frente da música, num remate glorioso. O círio, finalmente, dava outra volta em redor do templo e deixava então a rigidez da sua formação, enquanto os romeiros procuravam ocupar os seus lugares nas casas do Santuário que previamente lhes haviam sido destinadas pela Irmandade.

No segundo dia celebrava-se a festa, com missa e sermão, enquanto no largo continuava o arraial, e a música, no coreto que ali existia, enchia os ares com os acordes de um concerto qualquer. Ao terceiro dia era o regresso, um regresso cheio de saudade e de esperança em que o ano que se iniciava fosse próspero em colheitas para se poder voltar. E de novo, após três voltas à capela, o anjo atirava para o céu o aceno doloroso da saudade de todos os romeiros:

Eis-nos de volta aos nossos lares,
cheios de pungente saudade
destes excelsos lugares
de pura fé, santa verdade...

E era sempre assim com o círio de Peniche de Cima; com os Três Círios que, no terceiro domingo de Outubro, vinham da Serra de El-Rei, do Moledo e do Reguengo Pequeno; com os Sete Círios que, no domingo seguinte, vinham do Sobreiro Curvo, Penafirme, Silveira, Toledo, Areia Branca, Atalaia e A-dos-Cunhados; e ainda com os de outras terras, como Valado de Frades, Famalicão de Nazaré, Pataias, Ribafria...

 

Referências

[1] Viterbo, Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Frei – Elucidário das palavras termos e frases que em Portugal antiguamente se usarão e que hoje regularmente se ignorão – Volume II, Lisboa, 1799

[2] Sousa, Vítor Manuel Mendes de, Contributos e reflexões para a história de Caria, Sítio do Livro, 2020

[3] Santo, Moisés Espírito, em Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de ensaio sobre toponímia antiga, Assírio e Alvim, 1988

[4] Calado, Mariano, Peniche na história e na lenda, Oficina gráficas da CUF, 1968

[5] Carvalho, Manuel José Gonçalves de, Povoamento e vida material no concelho de Aveiro:

apontamentos para um estudo histórico-toponímico, 1999

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